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Não é sempre possível ao autor, em si, identificar o lugar de fala de sua obra, muitas vezes porque nem sempre o estilo que alcança, por ser-lhe intuitivamente inerente, ainda que inspirado, reflete aquilo que ele mesmo admira e entende como um caminho literário a seguir. Nesse prisma intuitivo encontram-se as particularidades de toda sua existência, seu inconsciente individual e o coletivo, parte da fisiologia histórica e social em que se insere e para a qual irá apontar sua edificação literária. Nesses tempos, ainda que superadas a idealização romântica e a crítica realista pelo foco literário, elas não devem ser desprezadas, como parte indispensável do pós moderno, estando presentes na própria natureza da intuição, alhures apontada. Não obstante, o determinismo não é visto como absoluto e paralisante. Nesse contexto, a obra que se apresenta tende a apontar na direção de uma crença, semeada por Rilke no século XX ao menos em duas oportunidades: em Cartas de amor ao jovem poeta e em Sonetos a Orfeu. Rilke assimila a tristeza, como o estrangeiro que adentra ao homem sem ser convidada e de quem ele se apropria, transformando-a:”O destino nos mede, talvez, com o metro do ser, por estranho que se o tenha”*1. Rilke, apesar do sofrimento existencialista inerente a esses textos, apresenta a possibilidade de um papel ativo do ser nesse processo: “Muitas pessoas não perceberam o que delas saiu, porque não absorveram o seu destino enquanto viviam, nem o transformaram em si mesmas”*2; “Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo horror, em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio”*2. A crença que emerge na proposta literária que se apresenta, dado esse contexto explicativo, é aquela na capacidade de o sujeito, em alguma medida, ser condutor do próprio destino. À vista da vida liquida desvelada por Bauman, e das diversas formas de mal estar social apontadas desde Freud*3, os tempos em que se vive (em meu espaço particular de existência) são tempos em que o foco não está no inalcançável sonho tão grande e tão distante, tampouco na limitação do humano, ante um ceticismo e um determinismo absolutos. A postura literária apresentada reflete, diante disso, uma tendência ao possível, ao realizável, não dentro de uma perspectiva ilusória, mas a partir das ferramentas da resiliência. Talvez uma resiliência própria desse mundo científico, desconfortável, mas líquido, plural e muito livre. A liquidez, aqui, assume seu caráter positivo, como próprio da resiliência, assim como a pluralidade, que é vista dentro de um contexto de inspiração pelo papel do outro, e não de conflito, à revelia das coetâneas formas distópicas de utilização da democratização da voz, essa inerente ao contexto social tecnológico desses tempos. A partir desse ponto de vista, o psicológico, o fantástico, e mesmo as pitadas de maravilhoso*5, tomados como ferramentas de escrita, são voltados de modo particular para essa forma de ver o mundo. O mundo do destino que escolho e que realizo, e no qual me realizo, dentro de um universo possível. Poderia chamar essa forma de construção de Literatura da resiliência, mas melhor deixar sem nome por enquanto, para não se liquefazer.

 

p.s. Nota sobre o pluralismo: O pluralismo aqui é problematizado sob o aspecto da coexistência com um outro, pelo que em sua humanidade se transpõe e une (não unifica),a partir do pressuposto de que cada manifestação plural deve ser respeitada, e mesmo apropriada, na construção de um entendimento que dele se enriqueça. Nossa perspectiva não enfatiza, portanto, o multicultural regionalista ou nacionalista, próprios dos intuitos de preservação. Isso não decorre de uma negação de seu valor, ao contrário, se reconhece o grande valor especialmente no campo literário, em que a riqueza de cada manifestação cultural é polinizada.

 

Para bibliografia das citações, vide página de referências

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