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PREFÁCIO: O VAZIO - O RISO -TERNURA - FIRMEZA - ACONCHEGO - MEIO PRA LÁ, MEIO PRA CÁ - A CRIANÇA DE UM ADULTO - POSFÁCIO: UM CÔMODO BEM GRANDÃO
PREFÁCIO : O VAZIO
Todo mundo tem um vazio dentro de si. Às vezes ele é maior. Às vezes, menor. E é o tamanho deste vazio que define quem somos. Meu avô dizia que todo mundo tem um grito dentro de si. Um grito silencioso. Às vezes sinto um cheiro de infância. O cheiro do creme hidratante que minha mãe usava. O cheiro do calor da lenha no fogão da minha avó que me dava alergias, mas que ainda assim me lembra aquela época boa. Aquele cheiro que lembra alguma pessoa, algum lugar. O cheiro diminui o tamanho do vazio. Ou aumenta. E isso me define.
O RISO
Ele riu. Meio assim sem jeito. Mas riu. Não podíamos dizer que era bem um riso, na verdade, mas a sua boca se movimentou para cima, como se movem as bocas que riem. E tudo isso resultou da mera assertiva denotando ordem: ria! E ele riu. Se lhe faltava o ânimo interior, ou pior, se o que havia nele era uma angustia tão densa que se poderia apalpar, não importava. Não podia simplesmente agarrá-la bem forte e jogar para longe. Será que por este fato simplesmente respeitante às coisas do interior aquilo deixaria de ser um riso? Pois dizem que o riso é um estado de espírito que vem à tona simplesmente, bem de dentro. Bom, ele riu. E a ordem quem deu? Essa tal de necessidade. Todos os dias ele acordava e ainda estava aquele escuro frio lá fora. Às vezes, ainda, se fosse fazer um dia bonito, tinha até estrelas. Embrulhava na barriga o frio que sentia por acordar de madrugada, arrumava rapidamente e com diligência seu material e caminhava para a rua ... E seu material: três bolinhas de jogar tênis, um nariz de palhaço e, é claro, o riso não treinado. E revezava os sinaleiros. Três dias seguidos como aquele e poderia comprar arroz, mais três dias, feijão. O sonho vinha de brinde todos os dias. E todos os dias o mesmo riso engolido. Quantos risos daqueles seriam necessários para transformar em revolta? Em cansaço? Ele estava ali, fazendo coisas de palhaço e palhaços são felizes, e, portanto, tinha que rir. Mas era sem jeito porque não entendia aquele riso do palhaço... CONTINUA
O RISO continuação
Como é que o palhaço era tão feliz? Se tinha problemas em casa, como poderia rir no show o palhaço? Se tinha, não se sabia, mas nunca se viu no palhaço um riso tão mal ensaiado. Se o palhaço estava só movendo a boca do riso, isso não se sabia, mas ele ali, na rua, enquanto terminava de jogar as bolinhas, ele ria que nada. Era mesmo a boca que lhe subia para as narinas fingindo estar alegre. Ele era um moleque, o riso mesmo, de dentro, de verdade, era o riso de piá, que apronta das suas coisas, coisas de criança. De piá que faz um buraco na canela pulando o muro para brincar de esconde-esconde. Que sai correndo da mãe para não tomar o remédio. Que provoca os irmãos mais novos com brincadeirinhas só para incomodar. Esse é o riso desajuizado do moleque. É o riso bisonho de quem procura o pote de ouro atrás do arco íris, de quem adota uma flor no mato para ser sua e cuida dela todos os dias, de quem sente o vento no rosto a primeira vez que anda de bicicleta. O riso curioso, de quem mistura ingredientes para fazer uma poção mágica, de quem espia no buraco da fechadura, de quem pergunta tudo e acha graça da resposta que não entende. O riso orgulhoso de quem ficou bonito de sapato novo, de quem acertou a argola na garrafa, de quem viu a sua flor adotada crescer bonita e forte... CONTINUA
O RISO continuação II
Mas ele engole o riso e se desloca, todos os dias, assumindo o menino responsável. Que pega dois ônibus e que vai sozinho para o meio da rua onde trabalha. Que deixa o medo embaixo da cama e vai sem ele mesmo, com apenas a sensação de que algo falta, de que algo ficou em casa. Mas não pensa, e, assim, deixa o medo embaixo da mesa, e não pensa nele. E nunca pensa. E deixa o medo preso na garganta, mas não pensa nele. Vai o menino com as bolinhas para o centro fazer ninguém rir de palhaço, vendendo sua indignidade. E depois volta com as moedas para alguém contar. E deixa o riso com o medo embaixo da mesa, e chega correndo para buscar o primeiro na hora que dá. Mas o riso tem espírito livre e tem uma hora que ele se vai, e fica o medo, transbordando o medo que ficou na garganta, invadiu o pulmão, preencheu o estomago, e o menino esqueceu. Já era tão dele que nem dava mais para lembrar como algo separado, como algo que viesse. Foi para o catálogo empoeirado e indiferente das coisas de sempre. E o riso, tem uma hora que não acha mais. Esqueceu como vinha, de onde era, e nem o procura mais. Ou esquece onde deixou e vai procurar em outro lugar. Deus sabe onde será fácil encontrar o riso e que tipo de riso poderá encontrar. Tem uma hora que não lembra mais do medo que escondeu, mas ele está lá, transbordando por algum lugar. Virou pedra em algum lugar. Se pudesse iria encaixar bem direitinho aquela bolota no seu estilingue, e mirar lá na lua. Quem sabe não vai?
FIRMEZA
O trabalho dignifica o homem! Sim, mas não a criança. Não a criança! Mas não adianta, o menino estava lá. Quando a gente é criança, tudo parece muito grande não é? Me recordo da casa em que eu morava com meus pais e que me parecia muito grande aquele espaço em que eu sobrava. Depois de um tempo voltei nesta casa. E ela era tão pequena! Mas sabe, a gente tem que aumentar o tamanho dos cômodos quando cresce, porque os antigos se tornam pequenos. Tem criança que não pode aumentar o tamanho do seu mundo, porque somente cresce, mas não vira adulto. Não tem tempo de aprender coisas novas e ampliar seus horizontes. E aí continua vivendo no cômodo apertado. Tão grande fora um dia. As coisas mudam quando a gente cresce, mas quando vejo estas crianças trabalhando assim, perdendo de aproveitar estes cômodos que ganharam tão espaçosos de graça só pelos simples fato de terem nascido pequenas, inocentes, e que lhes roubaram, porque tem que trabalhar. E quando vejo estas crianças assim, trabalhando em vez de aumentar o tamanho do seu mundo através dos estudos, da experiência de vida de criança, enquanto ainda são pequenas, para quando forem crescendo caberem nos cômodos, me entristece... CONTINUA
FIRMEZA continuação
E aí é que vemos estes pequenos adultos, seus pais, e estes adultos pequenos, os filhos. Certa vez encontramos um menino trabalhando em uma oficina mecânica. Logo na entrada, estava consertando um pneu de bicicleta e logo de imediato foi quem nos atendeu – Firmeza? Ele perguntou. Você trabalha aqui? Trabalho sim. E assim que percebeu nosso incômodo com aquele menino ali trabalhando veio lá de traz da oficina o tio, que mais parecia avô, se justificar. Ele está aqui só hoje porque eu tive que depor. E, enfatizando a culpa do menino pela família em que nasceu, logo arrematou o argumento – sim, eu tive que depor na delegacia porque o pai e o irmão dele estão presos, por isso ele veio me ajudar. Ah sim, então pode, se o pai e o irmão dele estão presos, claro... Achava que estava justificado. E o menino ajudava, segundo relatado pelo tio que parecia avô, há apenas três dias, e apenas porque ele teve que ir à delegacia... Mas daí não era aquele dia, eram três, mas não importa, o menino estava ali há três dias e suportava o fardo de estar sendo ajudado porque a SUA família estava com problemas ... CONTINUA
FIRMEZA continuação II
... Firmeza. Era isso que ele dizia a cada cinco palavras e efetivamente, era o que ele tinha que ser, muito firme. Não tinha tempo de querer alguém para cuida-lo, alguém para tira-lo correndo dali, alguém para protege-lo até ele começar devagar no mundo, até ele ir se acostumando. O pai e o irmão, presos, não quisemos perguntar por quê. Quando chegamos o menino estava passando cola no pneu de uma bicicleta e nos disse que o seu trabalho era somente isso, e outras coisas leves, como justificou. Ah, sim, leve. E disse isso com a certeza de um adulto firme. Firmeza. E enquanto o menino com camiseta branca suja de graxa e de bermuda creme, também suja de graxa, descalço, conversava conosco e consertava a bicicleta, chegou o cliente, um menino da mesma idade, que tinha a bicicleta para outro propósito, e na posição de quem está comprando um serviço, pagou e levou a bicicleta. O outro, na posição de quem serve – vendeu o serviço. E servia não porque ele estava ali a vender um serviço, mas porque ali era o lugar dele (e não dos outros da sua idade), ele era menos, porque seu pai e seu irmão estavam presos, e ele precisava daquilo, e disto ele era lembrado a todos os momentos, como forma de justificar a exploração. E assumiu este papel. E seu trabalho era só isso, leve. E o menino, praticamente um homem... CONTINUA
FIRMEZA continuação III
E enquanto questionado sobre se gostaria de ser encaminhado para este ou aquele programa social, sem ter a mínima ideia do que se tratava, o adolescente respondia apenas, firmeza, mais para convencer a ele mesmo que sim, estava tudo sobre controle e que sim, ele não estava com medo, e que sim, ele sabia do que se tratava, ou melhor, no mundo dos adultos é assim mesmo, o que importa não é o que você sente, mas como pensam que você está se sentindo... Enfim, firmeza, e era assim que ele respondia afirmativamente aos nossos questionamentos, sem se dar conta que dizia mesmo titubeando como criança que não sabe muito bem o que é isso, mas que não tem pra quem perguntar e segura a onda como um adulto com firmeza. Não meu senhor, firmeza mesmo é coisa de criança. Pra criança que é difícil, criança que não sabe, que não entende o mundo, criança que tem que fingir um alento que não tem, uma força que não possui, quando a obrigam a ser adulto. Se tem adulto que ainda é criança? Sim e como. Adulto é quem já entendeu o que é ter pai, mãe, já entendeu o que é ter afeto, já entendeu o que é estudar, já entendeu o que é ser protegido, pra ter esperança de que a proteção existe mesmo quando ela não está ali. A esperança é um cômodo bem grande! É quando a gente é criança que aprende as coisas boas da vida, pra ter esperança. Pra criança é que enfiam a firmeza goela abaixo, quando devia ganhar do pai e da mãe. E a que hora que a firmeza vai transbordar?
TERNURA
“Você vai à escola? A que horário? À tarde? Então está matando aula? Não? Como não, se são duas da tarde? Ah! Sua mãe deixou você faltar aula, então não está matando... E sua mãe, o que faz? Não sabe? Humm... Eram duas da tarde e o menino colhia beterrabas como um adulto em uma fazenda juntamente com mais 12 crianças e adolescentes. Ele era o mais novo. Descalço, debaixo do sol, trabalhava sob a proteção de uma senhora que o adotou no trabalho e que informou que a mãe dele era doméstica e que deixava ele ir trabalhar porque não tinha com quem deixá-lo pela manhã. O trabalho pela tarde vinha de brinde com a falta de transporte ao meio dia. Trabalhava como todos, acordava cedo, pegava o ônibus do gato no ponto às seis, colhia beterrabas o dia inteiro e, quando a colheita não atrasava, retornava às sete para casa, senão, chegaria mesmo às dez. E, como todos, ia ao banheiro atrás do saco grande de beterraba, como explicaram com riso envergonhado umas senhoras que trabalhavam ali também. Levava o lanche e comia ali mesmo, no meio das beterrabas sentado no chão... CONTINUA
TERNURA continuação
Água também trazia de casa, em garrafas pet de dois litros que meio dia já estava quente o suficiente para aprontar um chimarrão. Junto com ele trabalhavam o menino que gazeou aula e foi expulso da escola, a menina que esfaqueou a colega e também foi expulsa da escola, as senhorinhas... e, ainda, a menina de 16 anos, já com uma doença de pele pelo trabalho constante ao sol forte. Ofegante e mãe de um filho de três anos, ela dizia que vida de trabalhador é assim mesmo e que seu sonho era comprar uma máquina fotográfica para registrar os momentos felizes... E todo mundo ia solidariamente compartilhar a indignidade atrás do saco grande de beterraba. O menino era apenas mais um que escondia seu desalento atrás da sensação de que aquele destino não era somente dele. Mas foi mesmo a ternura daquela senhorinha o que trouxe a ele a um restinho de infância, um pedacinho de criança. Ele ainda era protegido, do jeito que fosse, e podia ter a esperança que nasce do alento de quem tem alguém para olhar por si. Senão, seria mais um que diria Firmeza e olharia para frente sem direito de chorar. O fato é que para ter ternura tem que ter afeto.
ACONCHEGO
Vamos meu filho! Quatro da manhã, o menino virava para um lado da cama, virava para o outro. Ah mãe, não quero. Vamos meu filho, acorda que o ônibus não demora a sair e já falei pro Fumaça que você ia. Dona Adelaide já está avisada, vai cuidar de você todo o tempo. Vamos meu filho. Só mais um pouquinho manhê. Não, levanta! Puxa mãe, calma, ô mãe, não puxa não, já tô saindo. É para o seu bem menino. Tô cansado!
MEIO PRA LÁ, MEIO PRA CÁ
Chegou na repartição. Sentou no guichê e pôde então explanar sua demanda. A camisa azul Royal própria para a ocasião vinha carregando nas costas os olhos gagos próprios da ocasião: a vida que lhe deram. E com ela veio o jeito de poucas palavras – o que não significava pouca fala, poucas palavras que emanavam o discurso pobre e largo e junto com ele a tentativa verossímil, mas não veemente, de convencer um dos dois ali naquele diálogo, sobre os fatos que viria a narrar. O que era caudaloso mesmo ali era a mentira. Tudo na tentativa de recuperar sua carteira de trabalho retida pela primeira empresa em que tinha começado a trabalhar por uma mera desorganização dos adultos que nela prestavam serviço. O amigo morreu e ele foi ao enterro e sem saber que não podia faltar quatro dias de trabalho sem avisar para isso e por isso foi demitido. Se ele estava falando a verdade? ... CONTINUA
MEIO PRA LÁ, MEIO PRA CÁ continuação
Mentia como um menino para a professora. A única verdade naquela história toda era sobre sua carteira de trabalho, e também sobre a cola que cheirava e pela qual parou de estudar por longos cinco anos. Que tinha faltado somente aqueles quatro dias e que as faltas tinham mesmo sido por causa da morte do amigo, ele logo foi desmascarado, quando após a ligação para a empresa, a desorganizada gerente de RH informou irritada que o menino santo que estava conversando comigo não ia para o trabalho assim como cabulava aula. Engatou o sufoco de ter matado trabalho no vagão da morte do amigo e a mentira podia ser então uma mentira de adulto. Mais prá lá. Mas quem era esse menino que chegou como quem é crível de camisa, mostrando que sabe que tem que se arrumar para o trabalho, mais um vagão para este trem, mas que não consegue usar mais de poucas palavras desordenadas para se expressar? Quem é esse menino que diz que agora vai fazer supletivo e parou com esse negócio de drogas? Mais pra cá. Mentindo porque sabia que tinha feito coisa errada. Mais pra lá. E a mentira para parecer honesto, era já uma farsa de adulto? Ou era uma tentativa, mais que infantil, de resguardar de sua mácula o espaço de exercício de sua cidadania e então, começar sem ela? Mais pra cá. Quantos erros levam ele a acreditar, mais por desistência do que por realidade, na sua falta de recuperação? Mais pra lá. Quantos erros para um menino de apenas dezesseis anos? Quanta vida ainda para um menino de dezesseis anos? Quanta vida para fazer tudo certo? Mais pra cá. Ah, quem serão os adultos a inspirar o seu destino, mais pra lá ou mais pra cá? E quem sabe, quem sabe algum deles seja mais convincente que qualquer má companhia ou tristeza da vida? E quem sabe, com muita sorte, algum deles seja um imo, lá no fundo, uma fonte que brote de vez em quando a lembrá-lo de que a esperança é uma roda leve que promete trazer água pura de algum lugar.
A CRIANÇA DE UM ADULTO
Dizem que somos sempre crianças para nossas mães. Talvez sejamos mesmo. Uma história que não se apaga e que reverbera no presente incessantemente, como se ainda fossemos aquelas crianças. É o cheiro do passado, a lembrança que preenche o vazio de cada um. Quem mata a infância, mata a graça do adulto, parte indispensável do que ainda somos. A criança dentro de nós é a graça da vida, a existência terna e doce, éter da nossa essência... Quando eu era pequena, minha mãe de vez em quando fazia arroz com feijão e sem tirar da panela, reunia meus irmãos e eu em volta dela e revezava as colheradas, ora na boca de um, ora na boca de outro, em sentido horário, e por vezes pulando a sua vez quando chegava. Não havia arroz com feijão mais gostoso, com o carinho de mãe, e não havia quitutes que nunca tivéramos a oportunidade de comer que pudessem ser melhores que ele. Depois que eu cresci que fui entender que aquele era um dia que não tinha comida em casa e que aquelas poucas colheradas seriam a única refeição da minha mãe no dia. Mas continuava sendo o arroz com feijão mais delicioso do mundo. A gente não tinha comida. Mas tinha mãe. Minha mãe, além de me proteger das coisas do mundo até que eu tivesse idade para poder eu mesma lidar com elas, me ensinou muitas coisas. Ela me ensinou, por exemplo, que cada um tem que ter seu espaço no mundo nem que seja um tijolinho em cima do qual a gente possa guardar nossas coisas. Todo mundo precisa de um cantinho que é seu... CONTINUA
A CRIANÇA DE UM ADULTO continuação
Embora pudesse entender o que ela quis dizer, só pude mesmo compreender a profundidade dos ensinamentos quando fiquei adulta, e percebi meu espaço, tão mais largo, sendo invadido. E pude entender a necessidade das paixões, do nosso ponto de fuga. Todo mundo precisa encontrar no mundo algo com que se identifique e então possa dizer, esse sou eu.O meu espaço encontrei quando criança, na caneta e nos papeis A4 coloridos que comprava na papelaria e onde escrevia poesias. Poesias de que aprendi a gostar lendo incansáveis vezes o poema infantil “ou isto ou aquilo” da Cecília Meireles. Depois, ironicamente, este livro caiu na minha prova de vestibular. E então percebi que minha mãe estava pensando no meu futuro desde que eu era pequena. Mas mais do que me ajudar a entrar na universidade, ela ajudou a encontrar minha paixão. As folhas coloridas e a caneta. E hoje, adulta, é este o meu mundo, é quem eu sou, é pra onde corro quando estou triste ou quando quero encontrar comigo mesma. Quando quero fugir do mundo que me oprime e que não compreendo. Quando quero me confortar. Se eu não tivesse sido apresentada à poesia, e ela não tivesse calado minha alma, poderiam ser tantas coisas. O que importa é que sejam coisas boas. Porque quando estamos tristes, qualquer coisa ruim pode vir a ocupar o espaço vazio que a falta de uma paixão na vida deixou. Que a falta de um espaço de nós mesmos deixou. O problema é que as vezes ninguém nos ensinou para onde podemos correr...CONTINUA
A CRIANÇA DE UM ADULTO continuação II
Aprendi também com minha mãe que as pessoas que erram precisam de uma desculpa moral para poderem seguir em frente. A gente não pode mostrar para elas o erro que elas cometeram escancarado na sua frente, rogando que admitam para todo mundo. Não podia ser assim com o menino da camisa azul do guichê. Tem erros que as pessoas entendem que cometeram, mas que não querem admitir. Então a gente tem que deixar pra lá. Aí que entra a famosa desculpa moral. Você finge que acredita que a pessoa cometeu o erro por um motivo que tinha e a perdoa, e ela também acredita nisso e então tem uma desculpa para continuar em frente e não errar mais. O erro foi motivado, mas no fundo a pessoa sabe. É como um jogo. Não errou deliberadamente. E então, não é tão pecador. Depois fui concluir a idéia com Machado de Assis, no Alienista, que as pessoas simplesmente erram porque faz parte da natureza humana e que cada um tem um lugar em sua personalidade contra o qual lutam, ou não, mas que é o lugar em que elas se desviam daquele ideal de moralidade. ... CONTINUA
A CRIANÇA DE UM ADULTO - continuação III
E que isso faz parte da natureza das pessoas e assim, elas precisam de um espaço para errar e que o radicalismo no julgamento, assim como a falta de desculpa moral, é um excesso que impede a humanidade de se restabelecer e condena perpetuamente. Aprendi com Machado de Assis que se todos forem condenados de todo por seus pequenos erros não sobra ninguém. E aí outra coisa que minha mãe também me ensinou: que a gente tem que olhar as pessoas (e para nós mesmos) como vários quadradinhos. Dentro de uns tem coisas boas, dentro de outros tem coisas não tão boas e que não podemos gostar e desgostar delas simplesmente com base em um dos quadradinhos. E que devemos dar o valor de um quadradinho ao erro, e não de todos, onde tem muitas coisas boas. Foi a primeira vez que eu tive contato com o dualismo, ou melhor, com a contestação dele. Se fosse condenada assim, pelos pequenos erros, não me sentiria a vontade para acreditar que posso melhorar e partiria então para os erros maiores. Não faria diferença mesmo... CONTINUA
A CRIANÇA DE UM ADULTO - continuação IV
Minha mãe também me ensinou que eu tinha direito de errar, e que transgredir (dentro dos limites de bom senso e respeito aos outros que ela também me ensinou) era importante. Transgredir a normalidade exigida se isso não faz mal a ninguém. Minha mãe também me ensinou que por mais que ela ensinasse várias coisas, meu juízo final eu iria descobrir sozinha e então ela me ensinou que eu podia discordar dela. E minha mãe também me ensinou que a gente não tem que olhar por um cano só (acho que minha mãe gostava de formas geométricas em seus ensinamentos, mas foi muito eficiente pra eu decorar), mas devemos olhar por vários deles na nossa frente. Foi a versão da minha mãe para “não coloque os ovos em uma cesta só”. Ela queria que a gente não ficasse “encanado”, como explicou. Se fosse para encanar, que colocássemos diversos canos na nossa frente. Foi muito importante saber disso, porque eu percebi que eu posso ser muitas, dentro de mim, e que posso ter muitos sonhos e que se um deles não deu certo, é possível seguir em frente. E então pude descobrir que há duas coisas muito importantes na vida: Ter mãe e uma paixão pra preencher o vazio. Escrever é minha paixão. Minha mãe me ensinou a gostar de ler. Minha mãe podia ser meu pai, ou qualquer outra pessoa que fizesse esse papel de cuidar de mim quando eu era criança. Cuidar por inteiro, sabendo que eu estava me formando para ser alguém no futuro. Sendo cuidada eu percebi que há pessoas no mundo em que podemos confiar e que portanto, vale a pena ser bom que isso não vai reverter em nenhum mal para mim. CONTINUA
A CRIANÇA DE UM ADULTO - continuação V
E foi assim que minha mãe sem nos colocar para trabalhar, conseguiu nos manter a salvo de qualquer desvio de caráter, mesmo com todas as dificuldades que tivemos na vida. E então me deparo com o menino cujo pai, analfabeto, diz que estudar não serve pra nada, sem ter a mínima noção do que é estudar. Então se ele não pode trabalhar ele pode roubar diz o pai, defendendo-se por colocar o filho a trabalhar. E quem pode condenar, mais um adulto menino, em que espaço preservou a criança dentro de si se ela nunca existiu? Nasceu mas nunca se criou, desenvolveu, viveu? Aprendeu? Quem aprende é a criança. E sempre que estamos aprendendo, de uma certa maneira, estamos sendo crianças de novo. Aprendendo o que existe no mundo, a conviver em harmonia com os outros, a respeitar nossas diferenças, a relacionar-nos em sociedade, a não ter vergonha, a superar nossos medos... Como ser criança se já teve que ser adulto desde pequeno? Se não foi ensinado, protegido? Se não sabe como aprender? Nasceu adulto e vai ser sempre menino, porque para ser um adulto homem, precisamos ter sido crianças primeiro e entender que vamos sempre aprender. E ter a dádiva de poder guardá-la para sempre dentro de nós.
POSFÁCIO: UM CÔMODO BEM GRANDÃO
A gente preenche o vazio que temos com o que quiser. Exceto por um fato: Know how. Tem gente que tem todos os meios para ser feliz, mas não tem uma única coisa. Não sabe como. Não sabe que coisas uma pessoa feliz pode fazer e assim... E preenche seu vazio com o que der. Imagine as nossas crianças, que ninguém ensinou que poderiam ter uma paixão, que ninguém explicou que a arte preenche o vazio. Que o esporte preenche o vazio. E que não é só o trabalho que preenche o vazio. Não, não o vazio da criança. E que as drogas preenchem o vazio rapidinho assim como rapidinho o devolvem, trazendo um vazio maior e mais duro. E que sempre vai sobrar um espacinho vazio, mas que está tudo bem... Que tamanho de mundo merecem os futuros adultos? Um mundo inteiro e um espaço somente seu. Um “cômodo” bem grandão! Cheio de esperança e de delicados aromas de infância!

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